O avanço das organizações criminosas (ORCRIM) nas últimas décadas transformou o crime no Rio de Janeiro em um competidor direto do setor produtivo, corroendo receitas, distorcendo decisões de investimento e submetendo empresas a um ambiente permanente de ameaça e extorsão. As ORCRIM deixaram de ser apenas estruturas de violência difusa e passaram a atuar como verdadeiras firmas clandestinas, com “departamentos” voltados à extorsão, controle territorial, venda de serviços e exploração de cadeias inteiras de suprimento.
Nas áreas dominadas, o criminoso não disputa apenas espaço com o Estado: ele regula quem pode operar, quanto paga e em quais condições funciona cada negócio. Há uma espécie de “gestão paralela” da economia local, na qual o poder público é empurrado para a periferia das decisões relevantes sobre circulação de mercadorias, uso do solo e até escolha de fornecedores.
Empresários sob um regime de pedágios
Empresas de comércio, serviços, construção civil, transporte, telecomunicações, internet, gás, logística, entre tantas outras, são forçadas a pagar “taxas” ou “pedágios” para manter suas operações, abastecer filiais ou simplesmente circular com caminhões e equipes técnicas. Em muitos casos, o não pagamento implica agressões a funcionários, incêndio de veículos, depredação de instalações e bloqueio violento de acessos, com impactos diretos sobre linhas de produção, estoques e distribuição.
Esse sistema de cobrança paralela funciona como um imposto ilegal sobre a atividade econômica, capaz de devorar margens de lucro, encarecer produtos e inviabilizar pequenos e médios negócios. Em vez de competir por eficiência, muitas empresas são forçadas a competir pela capacidade de sobreviver ao custo da criminalidade.
Logística na linha de frente
No setor de logística, as ORCRIM atuam em múltiplas frentes: ciberataques com extorsão a grandes empresas, infiltração de funcionários em transportadoras e comando de quadrilhas de roubo de carga. Estimativas indicam que o Rio perdeu centenas de milhões de reais em um único ano com roubo de caminhões, o que obriga empresas a aumentar gastos com escolta, seguro e tecnologia de monitoramento, custos que acabam repassados a toda a cadeia de consumo.
Não se trata apenas de prejuízo pontual, mas de mudança estrutural no custo de operar. A logística passa a ser desenhada não só a partir de critérios de eficiência e prazo, mas também de mapas informais de “território de facção”, horários de menor risco e necessidade de negociar trajetos com diferentes atores armados.
Casos recentes: do ataque cibernético à refinaria sitiada
Em agosto de 2025, a Polícia Civil deflagrou a Operação Fantasma para investigar ataques cibernéticos e extorsão contra uma empresa de logística com atuação no estado do Rio de Janeiro. O invasor exigiu cerca de 10 mil dólares em criptomoedas para não expor dados confidenciais da empresa, de clientes e fornecedores, enviou informações internas a mais de 20 parceiros e chegou a invadir o WhatsApp corporativo, mandando mensagens a funcionários e pedindo contato direto com o CEO.
A empresa registrou ocorrência na Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) e notificou formalmente a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, o que levou à busca e apreensão de equipamentos na casa do principal suspeito em Engenheiro Paulo de Frontin. Em setembro de 2025, um homem foi preso acusado de causar prejuízo de cerca de 1 milhão de reais à mesma empresa de logística por meio de ataque cibernético, em ação que envolveu polícias do Rio e de Minas Gerais.
Em novembro de 2025, a Polícia Civil lançou a Operação Refinaria Livre para desarticular um grupo ligado a uma ORCRIM que extorquia empresas instaladas no entorno da Refinaria Duque de Caxias (Reduc), área diretamente ligada à circulação de caminhões, insumos e operações industriais. Segundo a investigação, empresas eram obrigadas a pagar mensalidades sob ameaça de incêndio a caminhões, agressões a funcionários, interrupção violenta das atividades e impedimento de acesso às instalações, o que afetava profundamente a rotina logística da região.
A “legitimidade” como instrumento do crime
A adaptação mais recente das ORCRIM passa pelo uso de pessoas com aparência de legitimidade institucional – inclusive advogados e falsos líderes comunitários – para intermediar reuniões com empresas, formular exigências e blindar juridicamente o esquema de extorsão.
Em Duque de Caxias, por exemplo, uma ORCRIM usava um pastor que se apresentava como líder comunitário para ir pessoalmente às empresas, “negociar” e impor regras como pagamento de mensalidades, restrições a caminhões e imposição de contratações. Esse intermediário chegava às reuniões como se representasse moradores ou trabalhadores, mas, na prática, levava as ordens do chefe do tráfico, deixando subentendidas ameaças de incêndio a caminhões, agressões a funcionários e interrupção das atividades.
Em outra frente, mensagens interceptadas pela Polícia Federal indicam que um membro de ORCRIM repassou dinheiro a um advogado (ex-secretário estadual) que, segundo decisão judicial, “transcendeu os limites lícitos da advocacia” e passou a atuar como integrante da organização criminosa, fornecendo informações sigilosas sobre operações policiais.
Após megaoperações policiais no Rio, e como forma de a “firma” se recapitalizar, foram identificados casos em que advogados aparecem como representantes do crime organizado para celebrar “parcerias” com empresas, que só podem atuar em determinada área se aceitarem repassar um percentual da receita diária na região de influência.
O crime se reinventa: advogados deixam de ser apenas defensores técnicos em processos e passam a repassar recados, antecipar ações do Estado e criar canais “oficiais” de contato com autoridades e empresas, reduzindo a exposição direta dos chefes do tráfico.
Ao colocar pastores, líderes de associações ou advogados na linha de frente, a ORCRIM dá aparência de negociação institucional, o que facilita marcar reuniões, entrar em sedes empresariais e falar com gestores sem levantar suspeita imediata. Esses representantes combinam discurso de mediação (reivindicações de moradores, suposta greve, questões trabalhistas) com a mensagem implícita de que, se as exigências não forem atendidas, o grupo criminoso pode paralisar operações, atacar veículos ou intimidar funcionários.
O desafio ético e estratégico para as empresas
Operações do Ministério Público e das polícias têm bloqueado centenas de milhões de reais do crime organizado e prendido lideranças responsáveis pela extorsão de empresários, num esforço para reduzir a capacidade financeira dessas organizações. Ainda assim, enquanto o crime mantiver domínio territorial e acesso a mercados ilegais altamente lucrativos, empresas continuarão operando em um cenário no qual planejamento estratégico precisa necessariamente incluir soluções éticas e seguras para lidar com extorsões.
Isso significa incorporar, de forma permanente, análise de riscos, diagnóstico de segurança pública, inteligência criminal, relações institucionais responsáveis, proteção de dados e protocolos claros de resposta a tentativas de extorsão. O desafio do Rio de Janeiro, portanto, não é apenas combater a violência, mas impedir que o crime siga se comportando como um ator econômico dominante em parcelas relevantes do território fluminense.
Caso este contexto faça parte da realidade da sua empresa – ou caso possua interesse em se aprofundar no assunto – , a ICTS Security está à disposição para apoiar a gestão desses riscos.